terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Possíveis Cenários para o Mercado de Moda em 2016

A CoutureLab, mediante sua equipe, vem neste artigo antecipar alguns fatores que poderão influenciar o mercado brasileiro de moda, levando em conta o cenário de incertezas que paira sobre nosso país pelos próximos 6 meses, no mínimo. Este artigo visa não tomar partido político e muito menos gerar críticas baseando-se em números chatos e linguagem econômica, mas sim, apresentar algumas variáveis externas que irão atingir o mercado consumidor, e formas de lidar com estas adversidades.

A taxa de inflação será alta, o que influenciará em dois fatores primordiais. Se você conta com funcionários de carteira assinada, com certeza vai sentir o impacto mais drasticamente através do reajuste de salário da categoria. Em 2015, no estado do Rio Grade do Sul, onde atuamos mais fortemente, houve somente a reposição da inflação. Como era um ano de crise, os sindicatos fizeram sua conta de sacrifício em nome da empregabilidade. Para 2016, acreditamos que haverá um aumento acima de 10%, visto que a inflação atingirá esta marca. Para quem produz via facção, este impacto poderá ser sentido em menor volume, visto que, para não perder clientes, muitas facções não repassaram parte destes custos ao seu cliente, sacrificando com isso parte de seus lucros ou investimentos.

O segundo problema que a inflação trará é a queda do poder aquisitivo dos clientes finais. As próximas coleções terão de apresentar preços médios iguais ou com pouca diferença dos praticados ao longo de 2015. Para tanto, a busca de redução de custo unitário por peça é fundamental. Existem somente duas soluções: aumentar a produção com o mesmo custo fixo, o que gera um ganho de escala; ou encontrar fornecedores de tecidos e aviamentos mais baratos. A pesquisa será fundamental, qualquer desconto ou redução nos custos será necessária para enfrentar o ano de 2016.

O aumento do dólar é outro ponto prejudicial, e nisto não temos como interferir. Muitos grandes investidores estão desgostosos com as medidas sendo tomadas para colocar as contas do Brasil em dia, por isso eles retiram grandes quantias de dinheiro - seus investimentos - do mercado brasileiro, afetando a balança comercial de moeda, causando desvalorização do Real.

Mas como isso me impacta? Se você exporta ficará tranquilo, pois seu preço a Dólar no exterior fica o mesmo, podendo até baixar, mas quando este Dólar chega no Brasil e você troca por Reais, ganha mais dinheiro. Outro ponto positivo: os produtos importados perdem competitividade no Brasil. Sabe aquela roupa comprada no site da China? Ela fica mais cara em reais devido ao dólar valorizado. Porém, grande parte dos tecidos, aviamentos, maquinários, pigmentos para tecidos e demais insumos que o mercado de moda brasileiro consome é importado, fazendo com que o custo de fabricação de seu produto também fique mais elevado.

A dica para quem exporta ou pretende exportar é que dê uma atenção maior para este mercado. Se você atende somente ao mercado interno, tente substituir insumos importados pelos produzidos no país, baixe o custo de produção, e aproveite que o produto importado está mais caro. Se for comprar maquinário, experimente comprar semi novos, muitas empresas fecharam em 2015 e com certeza você consegue encontrar verdadeiras pechinchas. Como o mercado está recessivo e com uma alta taxa de inflação, é hora de negociar, tanto nos preços quanto nos prazos.

A alta dos juros, a famosa taxa SELIC, influencia o mercado de duas formas básicas. A primeira é que fica mais caro pegar um empréstimo, tanto em banco privado quanto no BNDES. Juros altos também influenciam no custo da antecipação de recebíveis, como cheques, boletos e cartões de crédito. Ficam também mais caros os empréstimos tomados pelos seus fornecedores, o que deixa o produto ou serviço deles também mais caro. Outra influência se dá na capacidade de tomada de empréstimo pelo seu cliente, como por exemplo, o limite do cheque ou do rotativo do cartão de crédito. Esse fator impacta diretamente a sua tomada de decisão na hora da compra - não vale a pena ficar no negativo, pagar um juro exorbitante só para ter aquela blusinha fantástica que está na vitrine.

Para controlar a inflação, a receita utilizada há anos é a redução do consumo: para fazer com que os preços baixem, elevam-se os juros. Se a indústria tem uma margem de lucro para reduzir ou uma margem para aumentar a sua produtividade, isso funciona de forma maravilhosa, porém se a indústria não tem como absorver vendas a prazo ou preços menores, a tendência é que se gere um represamento de consumo e que muitas empresas simplesmente fechem suas portas - e com elas vão os empregos de seus clientes.

Enquanto o mercado não acalma - o que está previsto para ocorrer, na melhor das hipóteses, a partir do segundo semestre de 2016 - a dica é reduzir a produção a um limite razoável de vendas. Neste caso, não produzir muito além da capacidade da demanda pelo produto, aumentar a produtividade para que se reduza o custo unitário do produto, pesquisar e negociar com os fornecedores. Tudo o que puder ser comprado a prazo que não tenha juros, ou que o valor do juro seja menor do que os dos empréstimos realizados pelos bancos, deve ser feito. Priorizar dinheiro em caixa, de preferência em um investimento de curto prazo - a boa e velha poupança é uma opção, ou CDB de 90 dias, no máximo.

Fuja de empréstimos a longo prazo e de juros abusivos. Se não for aumentar a produtividade, aumente a qualidade ou reduza custos significativamente. As compras podem ser deixadas para um outro momento. Procure empréstimos em instituições financeiras solidárias, de fomento ou investidor anjo. Vendas a prazo devem ser cuidadosamente vistas, pois existe a tendência de redução de dinheiro em caixa, o que leva a um círculo vicioso de antecipação de receita de recebíveis como cartão de crédito, cheque ou boleto - ocasionando um custo elevado para o dia a dia da empresa, pois reduz receitas futuras e perdem-se margens significativas de lucro.

Se a venda estiver abaixo do custo fixo da empresa, devem-se repensar urgentemente as suas estratégias de comunicação, marketing e produto. Provavelmente terás de reposicionar a tua empresa rapidamente, pois o público alvo não está comprando.

A coleção deverá ser em menor quantidade, priorizando a criatividade e a confecção de peças diferentes. Abuse de acessórios e roupas que se complementam. Estoque de peças e liquidações só destroem o lucro e a saúde financeira da empresa. Cuide muito bem da gestão de preços e descontos, comece com metas claras de lucro e o que se pode trabalhar de desconto para compras à vista, em grandes quantidades, ou para produtos encalhados.

Uma ótima dica é não ficar parado. Neste caso, abra uma segunda marca, ofereça a tua capacidade produtiva ociosa para faccionar produtos para outras empresas. Divida o custo da loja ou do ponto de venda - você pode reunir 4 ou 5 empresas e montar uma unidade colaborativa, compartilhando clientes e custos fixos. Outra ideia é ter a facção como parceiro e não se importar com a divisão dela com outros colegas, para tanto a capacitação e o desenvolvimento da facção é primordial: parcerias são boas apenas quando ambas partes saem ganhando.

Cuidado com lojas online ou vendas pela internet. Em épocas de crise, todos procuram formas mais baratas para vender seus produtos, e geralmente optam por inovação e criatividade, recorrendo à venda online como salvação. Entretanto, alguns cuidados devem ser tomados para quem deseja vender via mercado online: há de se pensar na logística de entrega, na legislação referente à trocas e formas de pagamento, e o marketing deve ser muito bem pensado. Ao contrário do que muitos falam, são poucas as empresas que estão obtendo lucro com vendas na internet.

Um investimento em comunicação para atrair público para sua loja física ou digital deve ser levado em consideração, as pessoas não compram se não conhecem a sua marca, e para isso ocorrer deve-se pensar em uma estratégia clara e simples que mensure os melhores meios, apontando os que mais trazem resultado. Não adianta ter um grande tráfego de público se eles não estão efetuando compras.

Este cenário parece desolador, mas não é novidade - quem é do mercado sempre enfrenta estas adversidades. Basta usar o cérebro e pensar em futuras ações com muita cautela. O que não estiver dando resultado deve ser eliminado o mais rápido possível, e o que estiver trazendo resultados deve ser mais explorado e melhor investido.

Um bom 2016 a todos.

Carlos Veiga de Oliveira

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